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Ele fazia perguntas que ninguém entendia, seus cabelos claros desgrenhados combinavam com a sua inquietude.
No curso de cinema era aquele que deixava todos pensativos. Gostava do plano das idéias e polemizar com as improbabilidades, adorava fechar os olhos e trancado no quarto tocar sua guitarra.
Enquanto a maioria torcia o nariz para ele, ela achava graça. Pequenina, cabelos escuros cacheados, olhos amendoados, falava baixo e ria engraçado. Seu pai dizia que lembrava um esquilo como mostrava os dentes e o barulho estranho que emitia.
Gostava de livros de ficção cientifica, mas não contava para ninguém.
Aos poucos começaram a sentar mais perto, mas nunca se falavam. Os risos trocados no ar ficaram comuns e não ruborizavam mais as faces. Ela saia todo dia mais bonita para que ele a notasse. Ele a percebeu um dia, rindo quietinha como se viesse de outro mundo.
Quase querer, em uma quarta-feira cinzenta, ele foi para o ponto e ela correu atrás, pegaram o mesmo ônibus.
Ele sentou-se rápido e abriu um livro. Ela apressou os passos, sentou ao lado e logo puxou papo.
Conversaram sobre as muitas coisas do mundo, desceram no ponto dele. Foram direto para o quarto que ele dividia com um amigo.
As roupas ficaram no caminho, percorrido pelas risadas e os beijos descompassados. A menina tímida era mulher entregue ao homem menino.
Quase estranhos viraram velhos conhecidos brincando de “descobrir” durante toda à tarde. Ela nunca mais esqueceu o gosto de saliva que tomou conta do seu corpo, ele ficou com o cheiro de baunilha no travesseiro, em todo lugar.
Foi assim que se conheceram…
Ouvindo: Crash Into Me- Dave Matthews Band , música maravilhosa para todos aqueles que como eu mergulham de cabeça nos sentimentos!
PS.: Queridos! Adorei os comentários sobre o filme, fiquei super feliz em saber que ele também deixou vocês meio “chocados”! O melhor desse espaço é esse encontro voluntário de pessoas sensíveis, queridas e inteligentes! Obrigada pelo carinho! bjos
E se corresse dali, com o vestido nas mãos, as lágrimas borrando os olhos e a boca cheia de mentiras para contar.
Poderia espantar o mundo com a sua nudez descabida, tristeza nos olhos e buraco no coração.
Ou se não quisesse que ninguém soubesse, sairia devagar pela porta de cara lavada e se esconderia na casa de alguma amiga para que ele não a encontrasse se procurasse.
Depois do vinho, amaram-se a noite inteira.
Bocas que percorriam os corpos, olhos que brilhavam cúmplices, suores que umedeciam os lençóis, aromas que invadiam o quarto, suspiros e gemidos que se ouviam longe. A cama batia na parede e eles riam de quem pudesse ouvir.
Ato consumado ele dormia espalhado, tranquilo. Ela tentava chorar baixo no banheiro, com o corpo ainda suado.
Sabia que não devia, mas a vontade era de pular em cima dele e bater com toda força para que nunca mais esquecesse.
Como alguém que poderia machucar quando quisesse seu útero preferia despedaçar seu coração?
Respirou fundo aos soluços, podia acordá-lo e pedir que explicasse. Mas não havia o que falar, estava tudo ali.
Quanta vergonha! Sabia que bilhetes guardados no armário em caixas, lá devem ficar.
Ficou parada olhando aquele corpo nu tão livre bem a sua frente. Observou cada nuance do cabelo, a largura das costas, o torneado das pernas, o formato dos joelhos, o tamanho das mãos.
Quanto mais observava, mais seu coração brincava de bater descompassado entre o ódio da traição e o fascínio da paixão.
Acalmou-se aos poucos, sabia que era capaz de tudo, só não podia perdê-lo. Se ele descobrisse toda aquela cena, a desconfiança, ela sabia que o perderia para sempre.
E se fingisse que aquilo nunca aconteceu?
Se estava guardado era para que ninguém soubesse, talvez nem ele lembrasse, não tivesse importância.
Segurou o choro, acalmou-se aos poucos, arrumou tudo como estava tomando cuidado com o barulho.
Deitou ao lado dele devagar, colocou uma de suas mãos em sua cintura. Ele a encaixou em seu tronco sem abrir os olhos.
Dormiram abraçados, amanheceram com o sol na fresta da janela. Ele ainda embriagado de sono sorria, ela em cima dele o amou como se fosse a última vez.
Ouvindo Don’t say Goodnight- Tuana:
PS.: Beijos aos queridos… Este texto é uma ficção inspirada no incrível livro de contos: Histórias de Amor- Rubem Fonseca. A história do post anterior continua um outro dia!


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