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E se corresse dali, com o vestido nas mãos, as lágrimas borrando os olhos e a boca cheia de mentiras para contar.

Poderia espantar o mundo com a sua nudez descabida,  tristeza nos olhos e buraco no coração.

Ou se não quisesse que ninguém soubesse,  sairia devagar pela porta de cara lavada e se esconderia na casa de alguma amiga para que ele não a encontrasse se procurasse.

Depois do vinho, amaram-se a noite inteira.

Bocas que percorriam os corpos, olhos que brilhavam cúmplices, suores que umedeciam os lençóis, aromas que invadiam o quarto, suspiros e gemidos que se ouviam longe. A cama batia na parede e eles riam de quem pudesse ouvir.

Ato consumado ele dormia espalhado, tranquilo. Ela tentava chorar baixo no banheiro, com o corpo ainda suado.

Sabia que não devia, mas a vontade era de pular em cima dele e bater com toda força para que  nunca mais esquecesse.

Como alguém que poderia machucar quando quisesse seu útero preferia despedaçar seu coração?

Respirou fundo aos soluços, podia acordá-lo e pedir que explicasse. Mas não havia o que falar, estava tudo ali.

Quanta vergonha! Sabia que bilhetes guardados no armário em caixas, lá devem ficar.

Ficou parada olhando aquele corpo nu tão livre bem a sua frente. Observou cada nuance do cabelo, a largura das costas, o torneado das pernas, o formato dos joelhos, o tamanho das mãos.

Quanto mais observava, mais seu coração brincava de bater descompassado entre o ódio da traição e o fascínio da paixão.

Acalmou-se aos poucos, sabia que era capaz de tudo, só não podia perdê-lo. Se ele descobrisse toda aquela cena, a desconfiança, ela sabia que o perderia para sempre.

E se fingisse que aquilo nunca aconteceu?

Se estava guardado era para que ninguém soubesse, talvez nem ele lembrasse, não tivesse importância.

 Segurou o choro, acalmou-se aos poucos, arrumou tudo como estava tomando cuidado com o barulho.

Deitou ao lado dele devagar, colocou uma de suas mãos em sua cintura. Ele a encaixou em seu tronco sem abrir os olhos.

Dormiram abraçados, amanheceram com o sol na fresta da janela. Ele ainda embriagado de sono sorria, ela em cima dele o amou como se fosse a última vez.

Ouvindo Don’t say Goodnight- Tuana:

PS.: Beijos aos queridos… Este texto é uma ficção inspirada no incrível livro de contos:  Histórias de Amor- Rubem Fonseca. A história do post anterior continua um outro dia!

O que já foi

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