Das pequenas grandes coisas…

5 set

vó

Nos dias de chuva em que a luz acabava ou ela mesma apagava, lá íamos nós para a cama escutar histórias.

Para ela, a chuva não gostava de conversa. Televisões e janelas chamavam trovões e decidir tomar banho nem pensar, era preciso ficar quieto.

Seu quarto tinha móveis fortes de madeira escura, na penteadeira perfumes e santinhos lindos em miniatura, o guarda-roupa era o lugar perfeito para encontrar as roupas dos meus personagens das peças semanais que eu apresentava no prédio.

Na parede, a padroeira Santa Rita fazia vigília a nossa bagunça e as suas histórias do Bicho Papão e Boi da Cara Preta era interrompidas pelo relampear, e quando medo chegava lá estava ela com o sorriso e os braços abertos para que dormíssemos.

Em tardes como essa, ainda espero que ela apareça e me chame para tomar chá para esquentar, comer bolacha e bolo com cobertura de limão.

Quando penso em férias, lembro das expedições malucas que fazíamos em seu quintal gigante, no meio das bananeiras, do galinheiro, desafiando os formigueiros.

Ela sempre atenta nos alertava, mas deixava, ela sabia que era coisa de criança. Naquele quintal decidi que ia ser veterinária, descobri as lesmas casca de banana, levei o colégio inteiro para conhecê-las e quase fui expulsa quando resolvi que a professora de ciências deveria vê-las de perto.

Um dia participei do parto da Pakita, uma das cadelinhas, quase fui mordida, sai toda suja e depois de levar uma bronca danada e passar mal literalmente, ela disse que não contaria a minha mãe se eu não fizesse de novo.

Ela era batalhadora, paciência, compreensão risada tímida, seriedade, fé sem tamanho, inocência, muitas histórias, cabelo que não podia bagunçar, porre de biotônico, bolinho de chuva, força para defender seus pequenos, fumar escondido, macarrão com frango no domingo, correr atrás do homem do sonho, ver Roberto Carlos escondido, subir a ladeira para comprar sorvete, corpo de violão, a mulher do açogueiro, a avó da menina loirinha, banho de mangueira, piscina de 1.000 litros para o verão dos netos, ensinar a lição de casa, abraço, telefonema no final do dia e todo o amor que houve nessa vida.

Só um livro contaria todas as nossas histórias, não é mesmo?

Todas as vezes que as pessoas brincam com a minha personalidade forte, meus momentos de timidez, minha indignação com injustiças e o jeito maluco que tenho para resolver as coisas sempre conto sobre você.

Como eu não posso abraçá-la, mas tenho certeza de que a senhora sempre olha por mim, está é a minha singela homenagem. Vó Feliz Aniversário! Eu amo você! Você sempre será a força que vive em mim e me faz sempre acreditar!

Pato Fu: Canção pra você viver mais

Beijos aos queridos!

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2 Respostas to “Das pequenas grandes coisas…”

  1. xumbo setembro 9, 2009 às 4:25 pm #

    me fez lembrar também da minha avó…

    saudades dos momentos bons da infância que passaram tão rápido, mas mesmo assim lembramos como se fosse ontem…

    bjoss!!

  2. KaJu outubro 13, 2009 às 12:33 am #

    Linda,
    Vc sabe q amo tudo q vc escreve, seja sobre amor, livros, familia, cinema… mas este tem um tom tão profundo de saudades… que me emocionou…
    Minha vó mora comigo, mas meu avô… esta nos céus… e era sempre ele q me defendia das bagunças e traquinagens de criança….
    Eles olham por nós, sempre e sempre…

    beijos!!

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