Quem procura não acha. É preciso estar distraído

23 fev

E não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso. Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Alian Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentemente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando
todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. (…)
Vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lávai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem
que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra?
Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco.
Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com
as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te.
Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida. (…)

Carta de Caio ao amigo Zezim, que nesta noite vazia foi escrita para mim

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7 Respostas to “Quem procura não acha. É preciso estar distraído”

  1. pena fevereiro 23, 2010 às 6:46 am #

    Linda Amiga:
    Sim! Tem razão, as pessoas o querem é uma retribuição. Textos ou poemas saídos de dentro. Que os anime e conforte no exigente frenesim da sua vida no quotidiano deles e delas.
    Um Post admirável. Sensato. Profundo.
    Beijinhos de pura amizade.
    Sempre a lê-la pelo interesse grandioso que suscita.
    Bem-Haja.
    Com respeito e estima enormes.
    Adorei.

    pena

    Fantástico, amiguinha doce.
    Tudo de felicidade para si e os seus.

  2. Sofia Duarte fevereiro 25, 2010 às 3:10 pm #

    Sorri ao ler esta postagem, a realidade é que a maioria das pessoas que começam a escrever desejam sempre que algo seja sempre retribuído.

    A minha poesia já se faz há quase 10 anos e só a uns dois ou três é que começou a sair do silêncio de mim e se publica no meu blog…

    E quem diz isso, fala também do meu romance, Salvatore e Emma, que tanto sai do meu coração sobre as horas que vão passando.

    Eu tinha um projecto que deixou de existir pois me cansei dele, a profundidade dele era tal que consumia tudo o que restasse. E como não havia ninguém que o lesse, decidi danar tudo aquilo e deixar de o fazer.

    Agora sim, tenho um projecto em conjunto com mais umas 4 pessoas que se faz nascer e vicia as nossas próprias almas. Chama-se “The Unforgiven Souls” e realmente nos torna imperdoaveis por desejar que atinja todos os de língua portuguesa na blogosfera.

    O sucesso e o carinho é o que mais desejam aqueles que escrevem… Uns acabam por se perder a meio do caminho, deixando que a ansiedade mate tudo o que a escrita tem de bom.

    Mas eu digo, escrevo com a alma, com todas as cores que meus dedos desenhar sobre a tela das palavras que me surjam à frente. Quem quiser comentar que comente, não deixará de brilhar o que eu escrevo apenas por não haver respostas de outros.

    Bem, divaguei aqui um pouco depois de ler o teu texto… Vim aqui agradecer-te o comentário ao meu poema.

    Um abraço!

    Sofia Duarte

  3. Rebeca fevereiro 25, 2010 às 6:11 pm #

    Essa carta é simplesmente perfeita! Faz umas 2 semanas que comentei sobre ela com Jota Cê, mostrando como Caio foi amigo nessa hora. E ler seu comentário foi tão bom, porque palavras também confortam…

    Beijo imenso, menina linda.

    Rebeca

  4. Sofia Duarte fevereiro 26, 2010 às 11:53 am #

    Tem selo para ti no meu blog…

    Vai a http://tracosdevidapoesia.blogspot.com/2010/02/selos-recebidos-da-saaaaan-xd.html
    E pega xD

  5. Jopa fevereiro 26, 2010 às 8:25 pm #

    Distrair para se achar! Magnífico!!!

  6. Rebeca março 1, 2010 às 2:21 am #

    Todo domingo mando uma música pra começar bem a semana, então espero que esse embalo vá de encontro ao seu coração.

    Beijo imenso, menina linda.

    Rebeca

  7. Lina Rubi março 17, 2010 às 12:14 pm #

    Guria…

    Não tinha lido o post, mas já tinha me apaixonado pelo título. A ironia dos fatos é o que mais me encanta na vida e a chamada do post descreve bem essa realidade.

    Sobre o conteúdo, nada mais belo que a escrita natural e sincera (mesmo quando a intenção dela seja enganar). Prefiro mil vezes um texto espontâneo e bem feito, do que vários picadinhos obrigados e mal pensados/sentidos.

    Parabéns pelo blog.

    Abraço,

    Lina RubiRed

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